Bom dia todas as cores

Bom dia todas as cores!

Publicado pela primeira vez em 1976, é uma das minhas histórias infantis  favoritos pois foi a partir dele durante a minha alfabetização que despertou a minha paixão pelos livros isso por sua  qualidade lírica e pela simplicidade de sua escrita. Ao utilizar-se de um Camaleão para trabalhar com cores a autora fora muito feliz, produzindo um texto que explora o variar de cores do réptil (e lhe atribuindo cores que não são vistas no mundo real, inclusive duas cores ao mesmo tempo) de maneira lúdica e de fácil compreensão. Logo na primeira estrofe do conto Ruth nos determina o que é o Camaleão: nosso amigo. Este detalhe traz um certo ar de humanidade ao personagem, criando um laço simples com a história. Na estrofe seguinte, ao dizer que “o camaleão mudou sua cor para cor-de-rosa, que ele achava a mais bonita de todas”, fica implícita uma questão de gênero interessante de ser trabalhada. O Autor deste artigo é docente na educação infantil e encontra-se no dever de relatar um fato acontecido quando o contar do texto encontrava-se no parágrafo descrito acima. Um menino de 5 anos questionou que “se ele é um camaleão menino, deveria gostar de azul, não de rosa, que é cor de menina”. Trabalhou-se posteriormente com as crianças da sala o que seriam coisas de menino e de menina, e percebeu-se que desde muito cedo as crianças estão sendo doutrinadas a aceitar um estereótipo do gênero. Baseado neste pensamento, o autor, possuidor de uma camiseta rosa com temática da Pedagogia, resolvera experiênciar o que se sucederia ao quebrar o paradigma dominante de gênero. A cena fora mais que tragédia: o menino que relatara ser cor-de-rosa cor feminina ao ver o professor com uma camiseta rosa imediatamente exclamou: “o professor virou menina!” ao que fora então questionado se o professor havia perdido traços físicos masculinos, como a barba, os pêlos nas pernas e o tom de voz. A resposta fora igualmente cômica: “não perdeu mas vai perder”.
É perceptível que a autora tenha deixado esta frase de propósito. O Trabalho com gênero na educação infantil constitui-se de importância grande, tanto quanto a autonomia e a afetividade. Mas embora os professores da EI tentem fazer com que se produzam novas compreensões de gênero por parte das crianças há uma resistência muito grande dos pais a qualquer comportamento considerado inadequado para o gênero. Um menino não pode brincar de boneca e uma menina não pode brincar de carrinho; se brinca, há algo errado, se são estimulados a brincar, reagem dizendo que não são coisas de seu gênero.

Na página seguinte (07) a frase “quero ser bonzinho para todo mundo” também traz um contexto de interpretações grande. Ao ler pela primeira vez, o autor deduziu que nem sempre o camaleão era bom; algumas vezes poderia agir maleficamente, outras com bondade. Relendo o texto percebe-se que a noção de bondade que se perpetua nele é a de que é bom quem faz tudo o que os outros querem – noção esta asseverada nas páginas 10, 14 e 18, páginas em que o camaleão troca de cor ao ser questionado. Se a autora não tivesse conhecimento pedagógico e soubesse ser este um problema muito comum na juventude (pensar por si mesmo, tomar as próprias decisões, não se deixar influenciar) teria parido uma das piores histórias para a infância… pelo contrário, ela desenrola boas frases no porvir literário:

…por mais que a gente se esforce, não consegue agradar a todos. Alguns gostam de farofa. Outros preferem farelo…

construindo assim um final que assevera a autonomia da criança, o dizer não como expor a sua própria opinião, expor suas ideias e fazer o que lhe convém (página 35 do livro). Um final simples mas que contrasta com tudo o que o camaleão fez durante o conto, em que estava subjugando-se ao gosto dos amigos em detrimento à usar a cor que achava a mais linda do mundo. Percebe-se também que o final deixa subentendido que o camaleão não sabia dizer não conscientemente, pois na frase “bastava que alguém falasse, mudava de opinião” fica claro a influência da opinião do outro, o que contrasta com a frase “eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém” na qual se divisaria uma ponta de julgamento antes de se aceitar a opinião do outro.
O Professor tem muito o que explorar neste conto, como o gênero, a autonomia e algumas frases que durante o texto podem suscitar comentários, como “você devia fazer o que a natureza ensina” (pg. 17), que é uma boa deixa para trabalhar com a natureza e “porquê você não usa uma cor mais avançada?” para trabalhar o velho e o novo. Um bom conto, sem muitos detalhes a nos entristecer, e que tem boa repercussão entre os educadores.

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